
A tentativa de terceirizar unidades de saúde em Campo Grande foi duramente criticada na manhã desta terça-feira (31), durante a Palavra Livre da Câmara Municipal. O presidente do Conselho Municipal de Saúde, Jader Vasconcelos, alertou que a medida não enfrenta os principais problemas da rede pública e pode desviar o foco do que realmente precisa ser resolvido.
“Trocar o modelo de gestão não resolve os gargalos da saúde. O problema não está só dentro das unidades, está na falta de leitos, na demora para internação e na desorganização do fluxo da rede”, afirmou ele, que usou a Palavra Livre a convite do vereador Landmark Rios (PT).
Segundo ele, a proposta de entregar unidades para Organizações Sociais (OS) vem sendo apresentada como solução rápida para um problema que, na prática, é estrutural.
“Não podemos aceitar uma solução mágica para problemas que são profundos. A mudança administrativa não cria leito, não resolve a superlotação e não melhora a retaguarda hospitalar”, destacou.
Jader também rebateu o argumento de que a terceirização resolveria falhas no abastecimento de medicamentos e insumos.
“Falta de remédio, reagente ou equipamento não é só problema de licitação. É falha de planejamento, de estoque e de gestão. E isso pode acontecer tanto na gestão pública quanto na terceirizada”, pontuou.
Ele ainda chamou atenção para o risco de se adotar metas como critério de eficiência.
“Meta não é sinônimo de qualidade. É possível bater meta e continuar oferecendo um atendimento ruim, apressado e pouco resolutivo”, disse.
R$ 1,2 bilhão em recursos e falta de gestão

Durante a sessão, o vereador Landmark Rios (PT) reforçou as críticas e afirmou que o principal problema da saúde em Campo Grande não é falta de dinheiro, mas sim de gestão.
Segundo ele, apenas em 2025, o município recebeu cerca de R$ 1,2 bilhão do Governo Federal, por meio do SUS. “A saúde não pode ser tratada como mercadoria. O que nós precisamos discutir aqui é gestão. Qual é o modelo de gestão que queremos? Porque recurso existe, mas o resultado não chega na ponta”, afirmou.
O vereador também defendeu a ampliação do debate sobre o tema, envolvendo município, Estado, Governo Federal e parlamentares. “Nós não vamos permitir gambiarra na saúde pública. É preciso fazer um debate sério, com responsabilidade, porque isso impacta diretamente a vida das pessoas”, disse.
Landmark ainda chamou atenção para outro problema crítico da rede, que é a demora na realização de exames, que evidencia falhas na organização do sistema.
Segundo dados divulgados pela própria Prefeitura, a pedido do Ministério Público, que apura a situação, milhares de pacientes aguardam por procedimentos essenciais.
Entre os principais casos:
11.410 pessoas aguardam ressonância magnética, com mais de 1.400 meses de espera acumulada
6.175 pacientes esperam por endoscopia
1.703 estão na fila para colonoscopia
559 aguardam polissonografia, com até 70 meses de espera
Além disso, há exames com zero oferta de vagas, como:
Cintilografia
Ecocardiograma infantil
Endoscopia respiratória
Para o vereador, esses números mostram que o problema central não será resolvido com mudança de gestão. “Nós temos milhares de pessoas esperando anos por um exame. Isso não se resolve com terceirização, se resolve com planejamento, organização e investimento correto na ponta”, concluiu.



